Sep 11, 2015
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Imigração africana na EUROPA – humanidade ou direito?

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A imagem do menino sírio Aylan Kurdi, de três anos, que morreu afogado em uma praia turca tornou-se um símbolo da crise migratória na Europa. Além do menino, um de seus irmãos e sua mãe também morreram no naufrágio. Somente o pai dele sobreviveu. O fato colocou no radar mundial um fato que já ocupava as manchetes dos jornais europeus há algum tempo. A pergunta que eu faço é “Seria a permissão da imigração africana uma questão de humanidade ou um direito?”

Há algum tempo tenho vontade de discutir este tema, mas só agora pude tirar uns minutos para escrever sobre ele. Como deixei o Brasil, minha perspectiva sobre este fato ficou mais próxima do que realmente acontece na Europa.

A primeira vez que percebi a presença de africanos na Europa foi em 2008, quando estive em Atenas, na Grécia. Durante o dia quase não se notava sua presença na cidade, mesmo em lugares turísticos. Ao sair do hotel, no centro de Atenas, pude notar que, assim que as lojas fechavam na Rua Ermou, eles brotavam e montavam suas barracas ou simplesmente toalhas no chão, vendendo bolsas Gucci, Prada, Louis Vuitton por 50 euros. Não falavam com você a menos que se aproximasse de um de seus produtos. Falavam o inglês suficiente para fechar a venda e nada mais além disso. Tudo isso, a uns 200 metros da praça Syntagma, sede do poder grego. A polícia grega parecia não os enxergar, eles eram invisíveis até que cometessem algum deslize.

Desde então, muita coisa mudou na Europa e a Grécia mergulhou na maior crise de sua história. O que não mudou foi a situação dos países africanos, mergulhados em guerras civis, guerras religiosas, guerras étnicas ou simplesmente fome e pobreza. Infelizmente, esta situação nunca muda. E ai, lanço a primeira pergunta: Além dos africanos, a quem interessa o desenvolvimento da África? Vou deixar que você mesmo responda.

Falemos sobre a África. O continente africano tem grandes proporções, assim como o Brasil, mas tem algo que nós não temos na mesma concentração: ouro, diamantes, minérios e petróleo. Vamos fazer um pequeno exercício mental, ok? Após eu escrever uma palavra em negrito, você vai me dizer a primeira coisa que te vem à cabeça, certo?

E a palavra é… ÁFRICA !

Vamos lá… Vou tentar adivinhar o que você pensou. Seria pobreza, ebola, negros, fome, miséria, desnutrição, ajuda. Acertei? Se não fossemos hipócritas, admitiríamos que a África não nos lembra nada de bom. E se eu disser que a nossa civilização começou na África, que o Egito e as pirâmides também estão lá? O que dizer do fato de que as religiões africanas estão desaparecendo e que a maioria dos africanos são adeptos do cristianismo e do islamismo? Não nos lembramos disso quando o assunto é África. A imagem que nos veem à cabeça são os negros pobres e famintos, sempre precisando de ajuda. Mas, qual seria a verdadeira ajuda de que os africanos necessitam? Comida ou desenvolvimento? No norte, temos a riqueza do petróleo, enquanto no sul temos os diamantes e minérios preciosos. Tudo isso, envolto em grupos terroristas, como o Estado Islâmico ao norte e Boko Haran ao Sul, com o recheio de ditaduras militares, disputas étnicas e guerras civis.

Agora, outra pergunta? E onde está o resto do mundo enquanto tudo isso acontece? Vendendo armas para as guerras civis, equipando as ditaduras militares, retirando o petróleo, os “diamantes de sangue” e a riqueza africana que o alimenta e faz as com que as engrenagens do mundo globalizado continuem girando. Globalizado? Pra quem? Não para os africanos.

O tão sonhado VISTO, buscado pelos imigrantes, representa a desigualdade entre os países do mundo. Basta comparar a dificuldade de um europeu entrar em um país africano com a de um africano entrar em um país europeu. E qual seria a diferença? DINHEIRO. Posso citar como exemplo o processo de imigração em Portugal/Espanha para os latino-americanos em comparação ao processo para os europeus e norte-americanos no Brasil. O dinheiro é o real PASSAPORTE, ele abre postas, fura filas e diferencia as pessoas no mundo, criando cidadãos de 1ª e 2ª classe.


A situação da Síria

A síria é hoje o país que mais envia refugiados para a Europa. Entenda que o termo refugiado de guerra está sendo usado para representar expatriados, ou pessoas que não podem mais contar com um Estado para lhes dar proteção, pessoas sem uma pátria.

composicao etnica Siria

Composição etnica na Siria

Esta condição foi causada pelo conflito iniciado em 2011, com o levante de grupos rebeldes contra Bashar al-Assad, que não obtiveram êxito e colocaram o país em uma Guerra Civil. Apesar do massacre de civis promovido por Assad, nem a ONU tampouco qualquer país teve a iniciativa de participar da deposição do ainda presidente Bashar al-Assad. Com as manifestações se transformando em revolta armada contra o seu governo, seus exércitos foram acusados, repetidas vezes, de crimes contra a humanidade, e a comunidade internacional e a oposição interna do seu país começaram a pedir a sua renúncia imediata da presidência, mas ele se recusou e afirmou que continuaria na luta para se manter no poder. A violência da repressão do governo fez com que vários países pelo mundo, como os Estados Unidos, Canadá e União Europeia adotassem sanções contra a Síria, mas elas afetaram mais a população do que o grupo do presidente.

Refugiados de Guerra ou imigrantes ilegais?

Esta é a questão que movimenta as discussões aqui na Itália. Por ser, assim como a Grécia, o país com maior proximidade com o território africano, a Itália é a porta de entrada dos africanos para a Europa. Normalmente, eles são recolhidos pela marinha italiana no Mar Mediterrâneo e, muitas vezes, em águas territoriais de países do Oriente Médio ou África. A Síria está localizada no Oriente Médio e não na África. A população síria em sua maioria não é negra. Daí, perguntamos: “Quem são estas pessoas recolhidas diariamente no Mediterrâneo e qual a sua origem?”

Respondendo a pergunta acima, temos esta distribuição de imigrantes:

european_asylum_origins

Perceba que Afeganistão, Kosovo, Servia, Pakistan, Iraque, Irã e Russia possuem governos eleitos e funcionais e NÃO ESTÃO NA ÁFRICA, eles chegam pela Hungria. Assim, quando falamos em barcos repletos de africanos, estamos nos referindo apenas aos nigerianos, somalis, sudaneses, marroquinos, dentre outros grupos menores que chegam à Europa. E pessoas lucram com esse tráfico de pessoas na versão marítima dos “coiotes” mexicanos, que guiam pessoas pelas fronteiras americanas em troca de dinheiro.

routes

E do que eles estão fugindo? Da fome, da miséria, da falta de perspectiva. Agora, chegamos ao núcleo da questão africana. Teriam os africanos o direito de migrar para os países da Europa em busca de emprego e prosperidade? Esta é a pergunta que a Europa se recusa a se fazer ou a responder. Eles atravessam o Mediterrâneo para trabalhar, pagar impostos e poder desfrutar da liberdade que não tinham em sua terra natal, vivendo no mundo exibido nas TV´s do mundo e na Internet.03_ComparisonLatestYears(29JUNE2015)

A ameaça do Estado Islâmico

Com a crescente onda de ataques terroristas, bem como de aumento dos territórios dominados pelo Estado Islâmico, o mundo está cada vez mais preocupado com a segurança de suas fronteiras. E usando esta prerrogativa, países como França e Reino Unido tem se negado a receber refugiados e pedem o bloqueio da Europa.

Eles estão errados? Do ponto de vista da segurança, não se tem hoje o menor controle de quem está entrando na Europa, seu país de origem tampouco seus antecedentes criminais. Em função da quantidade e da frequência com que os imigrantes tem chegado, eles recebem uma triagem médica básica e são encaminhados abrigos improvisados. A maioria segue viagem em direção ao Reino Unido, França e Alemanha em busca de trabalho. Outros, acabam ficando nas grandes cidades da Itália, engrossando o número de desocupados ou entrando para o emprego informal. Quando digo emprego informal, me refiro à máfia, que mesmo enfraquecida ainda os emprega na venda de produtos falsificados, como aquelas bolsas Louis Vitton de 50 euros que citei. É comum ver nas grandes cidades turísticas italianas africanos vendendo bolsas, “paus de selfie” e outros produtos de origem chinesa ou falsificações.

A verdade é que aqui na Europa qualquer um pode viajar de trem sem ser identificado e este é o calcanhar de Aquiles dos europeus que não identificaram a maior parte dos imigrantes que entraram pela Itália, Grécia ou Hungria. Quem são eles? Ninguém sabe.

O Brasil

Nesta semana, o “governo” brasileiro orgulhosamente divulgou receber mais refugiados sírios que países europeus. Quem lê a notícia, pode até pensar em algo organizado, minucioso. Na verdade, os que procuram a MRE ou a PF em busca de regularização compõe uma pequena parte dos ilegais no Brasil. Haitianos, sul-americanos, chineses, dentre outros circulam livremente pelo território brasileiro. Eles só viram notícia quando se envolvem em algum crime, como autores ou como vítimas, como foi o caso dos bolivianos libertados do trabalho escravo. Não podemos ser ingênuos em acreditar que alguém sabe quantos e de onde vem os estrangeiros ilegais no Brasil. Digo isso por ter morado dois anos em Canoa Quebrada, o lar dos europeus ilegais. Se você gritar “Polícia Federal” não sobra quase ninguém :). A grande maioria entra no país pelo aeroporto com visto de turista (90 dias) e vai ficando, esperando uma prorrogação do visto ou uma anistia. Na verdade, não há controle sobre o respeito ao visto e, em caso de violação ao prazo, existe uma multa limitada a 800 reais. A menos que você seja amigo de algum petista, como o criminoso italiano Cesare Battisti, pode se contentar com a clandestinidade. Se falarmos dos que não chegam pelos aeroportos, o número aumenta, e muito. Assim como as armas e drogas que entram no Brasil, temos a entrada de chineses, sul-americanos, africanos, dentre outros, sem documentos ou com documentos falsos, que entram por um dos milhares de quilômetros de fronteira sem controle.

A imigração

Algumas pessoas vêem os imigrantes como aquelas pessoas que não contribuem em nada para o país hospedeiro e representam apenas um peso a mais para o Estado. A história  nos mostra o contrário. Se formos avaliar a importância da imigração para a formação do Brasil, onde tivemos os alemães no Sul, japoneses, portugueses e italianos no Sudeste, sem falar dos judeus, árabes, espanhóis, dentre outros. O Brasil hoje não tem um rosto, é uma mistura de características de todos os povos. Na Europa, a baixa taxa de natalidade de alguns países em relação à taxa de natalidade dos imigrantes existentes irá garantir uma diversidade étnica em um futuro próximo.

Contudo se formos observar a história com mais profundidade, veremos que somos todos africanos. As ferramentas de pedra ajudaram os seres humanos com a caça. A olaria forneceu os recipientes para armazenar alimentos. Este alimento armazenado permitia a sobrevivência através de invernos rigorosos ou de áreas sem alimentos. O mapa abaixo mostra a migração humana para fora da África.

DNA da imigracao africana

DNA da imigracao africana

A solução

A solução definitiva só virá quando os países europeus começarem a investir no desenvolvimento africano, gerando emprego e núcleos de prosperidade e condições que façam com que os imigrantes queiram permanecer em seu próprio país. Hoje, americanos e europeus veem a Africa apenas como fonte de matéria-prima e mercado consumidor. Eles não tem interesse em desenvolver um continente e criar uma concorrência para seus produtos. Enquanto este quadro não mudar, não há muro que consiga impedir a entrada dos excluídos da globalização.

 

Ninguém abandona sua casa, seu país, suas origens por esporte. Aprender outro idioma, conviver com outra cultura ou mudar de continente não é a primeira opção de ninguém em pleno exercício de suas faculdades mentais. Eu digo isso por experiência. Deixei o Brasil para oferecer ao meu filho qualidade de vida, em virtude de problemas com Educação, Saúde e, principalmente, Segurança que assolam o país, mesmo vivendo na capital. Pude fazer isso de forma legal, graças ao fato dele ter dupla cidadania e eu estar casado com uma cidadã européia. Contudo, vejo brasileiros que entram na Europa e vão ficando, esperando conseguir um emprego e uma residência, simplesmente por perceberem a diferença entre viver aqui e no Brasil. O Brasil está cheio de hipócritas que criticam a imigração de haitianos, que perderam tudo no terremoto e na guerra civil e conseguiram asilo no Brasil. Pessoas que criticam a imigração para o Brasil enquanto sonham em mudar para os EUA.

Os africanos estão fugindo da fome e não deixam nada para trás. Como disse a escritora Fatou Diome “Não há muros que alguém que não tem nada a perder não consiga escalar”. Se a riqueza é globalizada, a pobreza também é. Se os EUA e a UE não perceberem isso, não há limite para o gasto com muros, cercas e policiais para impedir a imigração.

Imigrantes em Calais

A seguir, escolhi um vídeo com a participação da escritora senegalesa Fatou Diome falando sobre imigração, racismo e a migração árabe-africana para Europa, em um debate no programa francês “Ce soir (ou jamais!)”, exibido no dia 24/04/2015 no canal France 2. Peço que você veja o vídeo e os argumentos defendidos por Fatou. Com certeza, vai perceber que, entre a realidade africana negra e a europeia branca, existem mais que 50 tons de cinza…

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Cotidiano · Mundo

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