Aug 8, 2013
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Se seu genoma pode ser digitalizado, ele pode ser "hackeado"

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genoma

MercatorNet, a 26 de julho de 2013.

Li esse artigo outro dia e fiquei pensando sobre uma reportagem que vi há uns 2 anos no Esporte Espetacular, sobre predisposição genética no esporte. A reportagem foi muito boa e abrangente. Um laboratório genético na Austrália afirmou que um gene, o ACTN3, específico referente à musculatura humana indica aptidão para esportes. Atletas brasileiros se sujeitaram à análise para comprovar sua eficácia e apenas um dos escolhidos não era predisposto, o maratonista Wanderley foi o único erro encontrado. Cada vez mais perto de concluir finalmente o mapeamento genético humano – no famoso Projeto Genoma, os cientistas de um laboratório australiano com representação no Chile chamado Atlas Genético confirmaram a teoria sobre o ACTN3 para velocistas. A idéia é perturbadora e me fez lembrar um dos filmes mais monótonos e interessantes que já assisti: Gattaca, de 1997.

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Não quero estragar o enredo, então farei um resumo rápido. Dois individuos são testados geneticamente após o nascimento e, baseado em suas predisposições genéticas, suas profissões são escolhidas. Enquanto um vira astronauta, o outro vira faxineiro. Entretanto, após um acidente, o faxineiro tenta tomar o lugar do astronauta, pois este é seu maior sonho. O interessante no filme são as tentativas do faxineiro de apagar suas pegadas genéticas (amostras de DNA). Imagina isso: seu emprego é escolhido por suas características genéticas. Você quer ser piloto? Acho que não. Você tem predisposição a disturbios do equilibrio e da visão que podem ou não se manifestar. Então, NÃO. Não existiria mais vocação, apenas predisposição genética. Muito determinista pro meu gosto. Futuro sombrio, se pensarmos assim.

obama

Agora, vamos trazer isso para os dias de hoje. Em uma época onde Obama vira o “grande irmão”, você acha que deve ter cuidado apenas com o que escreve no facebook, twitter, emails, o que fala ao telefone? Não. Você esqueceu de sua característica mais valiosa: seu DNA.  O mundo ficou enfurecido ao saber da coleta e interceptação de dados de estrangeiros e de americanos pela NSA – a inteligência dos EUA, mas poucos observaram a questão da vulnerabilidade dos dados genéticos. Empresas privadas, como a 23andMe fazem serviços como esse. A 23andMe é uma empresa privada de genômica pessoal e biotecnologia, com sede em Mountain View, Estados Unidos, que fornece testes genéticos com rapidez. Sua denominação provém dos 23 pares de cromossomos de uma célula humana normal. Por US$ 99 , ela revela sua propensão genética para doenças como câncer e detalhes de seus ancestrais. O lema da 23andMe é ser uma empresa de genômica pessoal e biotecnologia que fornece testes genéticos com rapidez para o cidadão comum. A empresa te permite gerenciar melhor sua saúde e bem-estar, entender informações valiosas sobre você e seus ancestrais. Isso é fascinante. Imagine isso. E se você pudesse saber quais as doenças para as quais possui predisposição genética e pudesse tomar medidas preventivas com décadas de antecedência? Perfeito.

Mas, por outro lado, seus genes seriam mapeados no processo e digitalizados. E, se por acidente ou ato proposital, eles caíssem em mãos erradas? Os norte-americanos já obrigam o mundo a deixar dados biométricos  na imigração do aeroporto (nossas digitais), quando viajamos para lá. Tudo isso é feito sempre com a vasta desculpa de segurança nacional. E, se evoluírem para amostra de DNA? Claro, com a mesma “desculpa Bombril” de segurança nacional. Imaginemos. Você tem seu visto de entrada negado sem motivo. Você não sabe, mas tem um libanês, norte-coreano ou cubano na sua árvore genealógica e sabe como é? Não vamos arriscar, então, você não entra. Se pensarmos bem, não é uma situação tão hipotética assim.

Para os que acompanham o noticiário internacional, em junho, o London Times publicou a história genética do príncipe Harry e do príncipe William em sua primeira página – informação que repercutiu fortemente nos meios de comunicação da Grã-Bretanha e da Índia, já que William será o primeiro monarca com antepassados ​​indianos. Contudo, esta informação não só foi publicada sem o seu consentimento como foi obtida também sem o seu consentimento. O resultado foi gerado a partir de uma análise genética de dois de seus primos distantes por uma empresa privada, a Britain’s DNA.

Assim como a Internet, esse ramo de pesquisa cresceu rápido e sem uma regulamentação internacional. Cada país tem suas próprias leis a respeito e a maioria ainda nem as tem. A maioria dos centros de pesquisa são relativamente bem organizados e administrados por profissionais. Porém, e os enormes bancos de dados genéticos armazenados pela polícia científica, por hospitais e centros de diagnósticos genéticos particulares? Será possível alguém invadir e roubar esses dados genéticos que poderiam ser usados ​​para fraudes de identidade, chantagem, discriminação contra pessoas com doenças genéticas ou marketing farmacêutico? A resposta é sim.

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E quem falou em roubar? E se você fornecer o seu genoma voluntariamente ou vende-lo para pessoas que comprem partes dele para pesquisa ou marketing. Eventualmente eles podem oferecer decodificação genética gratuita, desde que você permita que as informações entrem em um banco de dados. Os clientes em potencial para um serviço como este incluiriam produtores de alimentos, varejistas, empresas farmacêuticas ou mesmo de serviços de namoro. Seria como em Minority Report , onde a propaganda é direcionada  a medida que Tom Cruise anda em um corredor. É o paraíso publicitário – vender o que o cliente precisa ou gosta tem condições de pagar.

Informação é poder! A informação não é obscura, mas o seu uso pode ser. Aquilo que pode nos ajudar a entender nossa origem também pode nos prejudicar.  Tudo isso é resultado de um mundo onde a ética é colocada em segundo plano quando o capital está presente.

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Saúde · Tecnologia

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