Oct 3, 2007
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Violência Urbana

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[photopress:violenciaurb.jpg,full,alignright] Minha dica literária da semana é o livro “Violência Urbana”, da coleção “Folha Explica”, que apresenta não só os patamares da violência urbana no Brasil, mas o contexto maior em que ela se apresenta, sugerindo os caminhos para sua superação, dando continuidade ao artigo anterior, sobre o filme “Tropa de Elite”.
O livro é assinado por Paulo Sérgio Pinheiro, que foi considerado pela ONU especialista independente para violência contra a criança e ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos, e Guilherme Assis de Almeida, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência, da USP. Como o nome indica, a série “Folha Explica” ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não apenas para que fique bem informado, mas para que também possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país. Recomendadíssimo.
Segue abaixo um capítulo do livro, que comprei na segunda e que ainda não li completamente.

“De dia, ande na rua com cuidado, olhos bem abertos. Evite falar com estranhos. À noite, não saia para caminhar, principalmente se estiver sozinho e seu bairro for deserto. Quando estacionar, tranque bem as portas do carro e não se esqueça de levar o som consigo. De madrugada, não pare em sinal vermelho. Se for assaltado, não reaja – entregue tudo.

É provável que você já esteja exausto de ler e ouvir várias dessas recomendações. Faz tempo que a idéia de integrar uma comunidade e sentir-se confiante e seguro por ser parte de um coletivo deixou de ser um sentimento comum aos habitantes das grandes cidades brasileiras. As noções de segurança e de vida comunitária foram substituídas pelo sentimento de insegurança e pelo isolamento que o medo impõe. O outro deixa de ser visto como parceiro ou parceira em potencial; o desconhecido é encarado como ameaça. O sentimento de insegurança transforma e desfigura a vida em nossas cidades. De lugares de encontro, troca, comunidade, participação coletiva, as moradias e os espaços públicos transformam-se em palco do horror, do pânico e do medo.

A violência urbana subverte e desvirtua a função das cidades, drena recursos públicos já escassos, ceifa vidas – especialmente as dos jovens e dos mais pobres, dilacera famílias, modificando nossas existências dramaticamente para pior. De potenciais cidadãos, passamos a ser consumidores do medo. O que fazer diante desse quadro de insegurança e pânico, denunciado diariamente pelos jornais e alardeado pela mídia eletrônica? Qual tarefa impõe-se aos cidadãos, na democracia e no Estado de direito?

Hoje, a violência urbana não é uma preocupação exclusivamente brasileira, mas sim um tema que ocupa a vida pública de diversas outras sociedades, tanto nos países pobres como nos desenvolvidos. Na última eleição presidencial da França, em 2002, por exemplo, o tema contribuiu para levar ao segundo turno o candidato de extrema direita Jean-Marie Le Pen – afinal derrotado por Jacques Chirac, graças à mobilização de todas as forças democráticas.

Nas páginas a seguir, não pretendemos oferecer respostas fáceis, nem imediatistas, pela simples razão de que não existem soluções mágicas, após décadas de atitudes negligentes e ineficazes da parte das autoridades públicas brasileiras, sobretudo no âmbito dos estados e das grandes cidades. Tal quadro possibilitou ao crime organizado impor seu terror, instalando-se nas comunidades populares e transformando-as em enclaves do não-estado de direito, muitas vezes graças à omissão ou até conivência das autoridades, tanto na ditadura como na democracia. O que fazemos aqui é mostrar a situação atual desse tema imprescindível e complexo, com referência especial ao Brasil.

Para tanto, o livro foi dividido em três capítulos: 1. “O Que É a Violência?”; 2. “Violência Urbana e Brasileira”; e 3. “Perspectivas de Superação”.
O primeiro capítulo discute as definições mais amplas e atuais de “violência”. O segundo situa a violência urbana no contexto das grandes cidades brasileiras, mostrando seus principais agentes e vítimas. O terceiro fala das estratégias e lutas para conter, minimizar e, se possível, superar as tragédias causadas pela violência urbana.

No final, há uma bibliografia básica e indicações de sites para ajudar o leitor a aprofundar-se nessa questão imprescindível à sobrevivência da cidadania e ao fortalecimento de uma vida pacífica em sociedade.”

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Literatura

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